domingo, 26 de junho de 2016

Precisamos voltar a 2013 antes de chegarmos a 1984


            Eu ia postar esta, somente esta frase, mas vejo que é necessário contextualizar por mais que eu tenha a intenção de confundir mais do que explicar.
            Pois bem, quando me refiro a 1984 estou falando sobre o livro de George Orwell sobre uma sociedade futura. O livro foi escrito em 1949, onde os direitos à liberdade são diariamente suprimidos por um longo sistema de vigilância e uma doutrinação diária sistemática e condicional. É deste livro o conceito de big brother, o grande irmão. Nele, todo mundo tem na sua casa uma tele-tela – na época da escrita do livro ainda não existiam televisores como conhecemos hoje. E na tela aparece a figura do grande irmão, que supostamente vigia a sua vida privada a qualquer momento.
            Além desse conceito de liberdade vigiada, outra característica são os chamados 2 minutos de ódio que cotidianamente as transmissões da tele-tela são interrompidas para o discurso do líder exilado, e todos são incentivados a gritar, xingar e odiar literalmente, com a possibilidade de ser hostilizado pelos outros e até agredido se não demonstrar o mesmo ódio.
            Se fizermos um parêntese nos dias de hoje, é possível identificar vários elementos que estão nos levando a este futuro de repressões.
            A primeira manifestação ocorre da polarização das opiniões. Se você não concorda com as opiniões e conversas do lado A, então você é do lado B. E vice-versa. E ninguém aceita que você seja lado C, por exemplo. Qualquer manifestação é classificação, parece algo simples mas esse é o problema principal para o nosso discurso pronto.
            Para que eu possa odiar, é preciso estar bem claro quem é o outro. Para que eu possa expressar meus dois minutos de ódio, tenho que ter um inimigo. O inimigo é tudo aquilo que eu não sou, se sou A, obviamente o inimigo é o B, mesmo que ele não seja, mas não importa – o ódio, gritos e xingamentos vão me dar uma descarga de adrenalina onde eu não precise pensar, só obedecer o padrão.
            Agora, por que precisamos voltar a 2013?
            Muitos até já esqueceram o que foi aquele movimento, A princípio, surgiu em oposição ao aumento das tarifas de ônibus, depois foi agregando outros movimentos e reivindicações e se tornou um levante nacional.
            Porém, a tônica das manifestações era pela diversidade, apartidário e até apartidário, os movimentos pediam o aumento das liberdades, dos direitos e até dos prazeres, com uma certa inocência é claro, mas como uma legitimidade inquestionável.
            O que aconteceu? Como o movimento não tinha uma única vertente, ou um líder, certo grupo capturou o movimento para si e nos deu os lados A e B. Agora temos o que odiar. Não mais diversidade, e sim polarização. Assim fica mais fácil, escolha o seu lado e descarregue os seus dois muitos de ódios diários. Aliais, pelo que temos visto ultimamente, tem gente gastando bem mais que dois minutos.  O resto ou a consequência até aqui nós estamos presenciando.
            Por mais que seja confortável simplesmente odiar, precisamos olhar entender e respeitar o que está ao nosso redor.
Aceitar a diversidade é mais difícil.
É necessário pensar, coisa que o ódio não nos deixa permitir.
Precisamos aprender a discernir, entender.
Precisamos aprender a respeitar, a aceitar mesmo, que não concordemos.
É necessário e urgente, se ainda houver tempo, retomar a inocência inicial dos levantes populares. Fugirmos das amarras da polarização e considerar a diversificação.
Por mais que eu queira acreditar, ainda que inocentemente perceba que caminhamos cada vez mais para um futuro distópico. Estamos acostumados que tudo acontece rápido demais, os eventos que nos levarão a um mundo semelhante aos descrito no livro 1984 já iniciaram e vão continuar ainda lentamente por um bom tempo, apagando nossas memórias, iludindo nossas mentes, torturando nossas almas. Talvez lá na frente alguns de nós tenhamos no fundo de nossos corações uma inquietação de que as coisas poderiam ser diferentes, que outro mundo é possível. Só teremos que cuidar para que esta inquietação não seja um incômodo para o sistema... Tudo vai depender do tamanho do sistema permitirmos. 


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Esse é um texto que produzi na Oficina de Criação Literária: Crônica da 8ª Feira do Livro de Brusque realizada pelo escritor Saulo Adami. e pela psicóloga Jeanine Wandratsch Adami. 

terça-feira, 21 de junho de 2016

O carona

 Não era tão tarde assim mas estava muito frio na rodovia e o clima de inverno tornava a estrada mais opressiva. Estava saindo da cidade com duas horas de antecedência. Esperava chegar ao ponto de encontro antes da hora marcada, teria que esperar, mas tudo bem. Assim que o Maveric V8 subiu a ultima curva,  encontrou o carona aguardando. Uma silueta de quem vestia um pesado sobre tudo, mal iluminado pela luz torta do poste confundia-se com as latas de lixo transbordando na beira da estrada. Ok, podemos chegar mais cedo, vai ser bom.

Encostou o carro, abriu as janelas embasadas e molhadas pelo frio.  O carona entrou com certa dificuldade de ajeitar o grande casaco. Disse boa noite enquanto o passageiro resmungou alguma coisa. Arrancou com o carro queimando pneu. Gostava de sair acelerado para mostrar a força do V8, cor preta, para-choque com barras de ferro reforçadas, um verdadeiro monstro da estrada. Impressionava qualquer um que gostasse ou não de carros. Pelos primeiros quilômetros permaneceram calados. Um cheiro de cigarro forte misturado com cachorro molhado tomou conta do ambiente. Olhou ligeiramente para o lado, o passageiro tinha um cabelo loiro com aspecto de mal lavado e pele muito branca, mesmo com a pouca luminosidade dentro do carro foi possível perceber o contornos das veias quando levou a mão ao rosto para limpar o nariz.

Naquele momento percebeu que algo não estava de acordo com o planejado. Tratou com o carona pela internet, não viu claramente a foto no perfil, mas começava a acreditar que pegou o cara errado. Ficou pensando em iniciar uma conversa mas o passageiro olhava fixamente para frente, sua face dura se iluminava momentaneamente a cada passagem dos carros que vinha na direção contrária.

Começo a ficar tenso ao volante. Apertou o acelerador e começa a dirigir mais rápido já passava bem dos 120km quando entrou em uma parte deserta e mais sinuosa da estrada.  A tensão e a angústia aumentaram quando tirou um fininho ao ultrapassar um caminhão em cima de uma curva a esquerda. O passageiro soltou um grunhido rouco e continuou a com o olhar fixo. Na terceira ultrapassagem perigosa finalmente o passageiro virou a cabeça e falou com voz rouca.

- Está querendo se matar cuzão?

Pensou que finalmente conseguiu alguma reação e poderia começar uma conversa até sentir o cano gelado do revolver no pescoço. Engoliu em seco, rangeu os dentes e meteu o pé no acelerador até o fundo.
- Vai lá, estoura os meu miolos, não tenho mais nada a perder nesta vida mesmo, ai ser épico agente se arrebentar nessa porra.

O motor do V8 rosnava no máximo e a reta chegava ao final, sentiu a arma engatilhar. Ia ser agora. Mas não foi, ainda não. Alguns segundos, vacilão, se fodeu. Apertou no freio. Puxou o freio de mão, virou o volante para esquerda, a arma disparou mais acertou o teto. Hora de usar o dispositivo especial, já tinha pegado babacas come esse antes. Mesmo na inércia da derrapagem  conseguiu colocar a mão na lateral do banco e puxou o botão. A porta se abriu, o carona é lançado para fora. Nos segundos seguintes que pareceram durar minutos, seu corpo não tocou em nada, inércia total até seus membros encontrarem o asfalto áspero e duro. Tudo gira violentamente. Tudo se apaga. Sente que seus olhos estão abertos mas não existe visão, um silêncio súbito, por um momento o não ser. Até que a ânsia de vomito traz de volta a existência. Tenta se mover. Os membros não respondem adequadamente, sente o corpo úmido por toda parte. A visão mesmo embasada começa a revelar algumas formas redondas e brilhantes a sua frente. Gosto de sangue na boca, os sons voltam a se formar. O conjunto dos sentidos faz perceber o V8 a alguns metros a sua frente. Ele ficou ali, filha da puta, esperando eu acordar. Acelera ameaçadoramente, via chegando mais perto, quer meter medo aquele viadinho. Queria levantar o dedo do meio mais não sente as suas mãos. A dor finalmente chegou. Gospe o sangue. Encosta a cabeça de novo no asfalto e começa a rir. 
O V8 acelera mais forte, pneus gritam no asfalto, o ronco se aproxima com velocidade. Relaxa o corpo de vez, fecha os olhos e a ultima coisa que ouve são os seus osso sendo destroçados.