Eu
ia postar esta, somente esta frase, mas vejo que é necessário contextualizar
por mais que eu tenha a intenção de confundir mais do que explicar.
Pois
bem, quando me refiro a 1984 estou falando sobre o livro de George Orwell sobre
uma sociedade futura. O livro foi escrito em 1949, onde os direitos à liberdade
são diariamente suprimidos por um longo sistema de vigilância e uma doutrinação
diária sistemática e condicional. É
deste livro o conceito de big brother,
o grande irmão. Nele, todo mundo tem na sua casa uma tele-tela – na época da
escrita do livro ainda não existiam televisores como conhecemos hoje. E na tela
aparece a figura do grande irmão, que supostamente vigia a sua vida privada a
qualquer momento.
Além
desse conceito de liberdade vigiada, outra característica são os chamados 2 minutos de ódio que cotidianamente as
transmissões da tele-tela são interrompidas para o discurso do líder exilado, e
todos são incentivados a gritar, xingar e odiar literalmente, com a
possibilidade de ser hostilizado pelos outros e até agredido se não demonstrar
o mesmo ódio.
Se
fizermos um parêntese nos dias de hoje, é possível identificar vários elementos
que estão nos levando a este futuro de repressões.
A
primeira manifestação ocorre da polarização das opiniões. Se você não concorda
com as opiniões e conversas do lado A, então você é do lado B. E vice-versa. E
ninguém aceita que você seja lado C, por exemplo. Qualquer manifestação é
classificação, parece algo simples mas esse é o problema principal para o nosso
discurso pronto.
Para
que eu possa odiar, é preciso estar bem claro quem é o outro. Para que eu possa
expressar meus dois minutos de ódio, tenho que ter um inimigo. O inimigo é tudo
aquilo que eu não sou, se sou A, obviamente o inimigo é o B, mesmo que ele não
seja, mas não importa – o ódio, gritos e xingamentos vão me dar uma descarga de
adrenalina onde eu não precise pensar, só obedecer o padrão.
Agora,
por que precisamos voltar a 2013?
Muitos
até já esqueceram o que foi aquele movimento, A princípio, surgiu em oposição
ao aumento das tarifas de ônibus, depois foi agregando outros movimentos e
reivindicações e se tornou um levante nacional.
Porém,
a tônica das manifestações era pela diversidade, apartidário e até apartidário,
os movimentos pediam o aumento das liberdades, dos direitos e até dos prazeres,
com uma certa inocência é claro, mas como uma legitimidade inquestionável.
O
que aconteceu? Como o movimento não tinha uma única vertente, ou um líder, certo
grupo capturou o movimento para si e nos deu os lados A e B. Agora temos o que
odiar. Não mais diversidade, e sim polarização. Assim fica mais fácil, escolha
o seu lado e descarregue os seus dois muitos de ódios diários. Aliais, pelo que
temos visto ultimamente, tem gente gastando bem mais que dois minutos. O resto ou a consequência até aqui nós
estamos presenciando.
Por
mais que seja confortável simplesmente odiar, precisamos olhar entender e
respeitar o que está ao nosso redor.
Aceitar a diversidade é
mais difícil.
É necessário pensar, coisa
que o ódio não nos deixa permitir.
Precisamos aprender a
discernir, entender.
Precisamos aprender a
respeitar, a aceitar mesmo, que não concordemos.
É necessário e urgente,
se ainda houver tempo, retomar a inocência inicial dos levantes populares. Fugirmos
das amarras da polarização e considerar a diversificação.
Por mais que eu queira
acreditar, ainda que inocentemente perceba que caminhamos cada vez mais para um
futuro distópico. Estamos acostumados que tudo acontece rápido demais, os
eventos que nos levarão a um mundo semelhante aos descrito no livro 1984 já
iniciaram e vão continuar ainda lentamente por um bom tempo, apagando nossas
memórias, iludindo nossas mentes, torturando nossas almas. Talvez lá na frente
alguns de nós tenhamos no fundo de nossos corações uma inquietação de que as
coisas poderiam ser diferentes, que outro mundo é possível. Só teremos que
cuidar para que esta inquietação não seja um incômodo para o sistema... Tudo
vai depender do tamanho do sistema permitirmos.
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Esse é um texto que produzi na Oficina de Criação Literária: Crônica da 8ª Feira do Livro de Brusque realizada pelo escritor Saulo Adami. e pela psicóloga Jeanine Wandratsch Adami.
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